quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sou as minhas memórias

O velho está sentado na beira da cama estreita, mãos abertas fincadas nos joelhos, cabeça baixa, olhos fixos no chão. Não faz ideia de que uma máquina fotográfica está instalada no tecto, mesmo por cima dele. O obturador é silenciosamente accionado uma vez por segundo, produzindo oitenta e seis mil e quatrocentas fotografias a cada rotação da Terra. Mesmo que soubesse que está a ser vigiado, isso não faria a menor diferença. A mente dele está longe daqui, encalhada no meio das criaturas que povoam a sua imaginação, enquanto procura uma resposta para a pergunta que o atormenta.

Quem é ele? Que faz aqui? Quando chegou e quanto tempo permanecerá aqui? (...)



Há um certo número de objectos no quarto e, em cada um deles, foi colada uma tira de fita adesiva branca onde se pode ler uma só palavra escrita com maiúsculas. Na mesa-de-cabeceira, por exemplo, a palavra é MESA. No candeeiro, a palavra é CANDEEIRO. Mesmo na parede, que não é um objecto no sentido estrito do termo, há uma tira de fita em que se pode ler PAREDE. O velho ergue os olhos por um momento, vê a parede, vê a tira de fita adesiva colada à parede, e, com uma voz sumida pronuncia a palavra parede. O que não podemos saber neste momento é se ele está a ler a palavra na fita ou se está simplesmente a referir-se à parede. Pode ser que ele já não saiba ler, que se tenha esquecido dessa aptidão, mas que ainda seja capaz de reconhecer as coisas e de as chamar pelos seus nomes, ou, inversamente, que tenha perdido a capacidade de reconhecê-las, mas que ainda saiba ler.

Paul Auster, Viagens no Scriptorium, Edições ASA.

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